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Publicado em: 20 março 2024 às 09:39 | Atualizado em: 20 março 2024 às 13:17

5 horas da manhã de 13 de março de 1901: Começa o "massacre de Alto Alegre"

Por Edmilson Sanches *

Cartaz anunciando o filme documentário “O Massacre de Alto Alegre” – Foto: Reprodução

Há 123 anos, em 13 de março de 1901, aconteceu o “massacre de Alto Alegre”, em que índios guajajaras invadiram uma colônia estabelecida por religiosos italianos (frades capuchinhos).

Ao final, a golpe de facas e tacapes e tiros de espingardas, mais ou menos 200 pessoas foram mortas, inclusive cinco padres e seis freiras e aproximadamente 200 leigos, entre professores, alunos e outros. O cacique guajajara Cauiré Imana, o João Caboré, líder do massacre, foi preso pelo capitão Raimundo Ângelo Goiabeira e morreu por tortura, em 1905.

MASSACRE DE ALTO ALEGRE – A VÉSPERA

Em 12 de março de 1901, em Barra do Corda (MA), nas imediações da Colônia de São José da Providência do Alto Alegre, estabelecida por frei Carlos de São Martino Olearo, nota-se, na tarde e noite, um movimento festivo dos índios guajajaras.

No dia seguinte, eles atacarão religiosos e leigos em um morticínio que ficou conhecido como “Massacre de Alto Alegre”.

A “evangelização civilizadora” dos capuchinhos incluía a catequização de índios e sua conversão à cultura dos brancos. Deste modo, dezenas de filhos dos índios eram objeto daquela missão religiosa… mas crianças são, como em toda cultura, seres de especial estima dos adultos, principalmente os pais. O resgate virou chacina. Cerca de duzentas pessoas foram mortas pelos índios.

O “massacre de Alto Alegre” virou tema de filme e livros. No Maranhão, sem falar nas notícias de jornais desde a época do ataque, há uma longa e detalhada reportagem do jornalista e escritor Antônio Carlos Gomes de Lima, também conhecido como “Pipoca”, ex-diretor de redação do “O Estado do Maranhão” e meu amigo, falecido em 8 de outubro de 2023.

O frade capuchinho Aristides Arioli, em seu “Livro de Tombo”, que revisei e editei em 1993 em Fortaleza (CE), traz em Apêndice nove páginas sobre o assunto, inclusive uma relação com o nome de 53 vítimas.

Mais de um século depois do “massacre”, estudiosos e religiosos debruçam-se em reflexões sobre a chacina e, entre as motivações, eventuais erros ou impropriedades de abordagem dos voluntariosos capuchinhos, que, ao fazerem a “obra de Deus”, causaram um choque cultural quando “mexeram” nas estruturas do modo de ser e fazer dos índios guajajaras.

REPERCUSSÃO – Escrito há anos e republicado ao longo dos tempos, o texto acima registra diversas manifestações. Algumas delas, via Facebook, comprovam o quanto leitoras e leitores são ricos em vivências, curiosidades, informações, imaginação, opinião. Sozinhos, os registros ofertam um mundo de possibilidades para abordagens, aprofundamento, detalhamento, pareamento… – um universo a ser considerado. Alguns comentários:

—– “Espero que lá [em uma série de reportagens sobre o “massacre”] não esteja só a versão do homem branco. O massacre ocorreu e devemos lamentar até hoje, mas é necessário mostrar todos os episódios desse enfrentamento entre índios e “brancos”, inclusive os ataques sofridos pelos nativos, antes e depois do Massacre de Alto Alegre.” (PIETRO MARINO, Imperatriz – MA, 13/03/2013)

—– “Bastante interessante, Sanches… Parabéns!” (JENNIFER TALIA SOARES BITENCOURT, imperatrizense, residente em São Paulo – SP, 13/03/2013)

—– “Minha Avó materna era Josefa Goiabeira Ferraz, neta do Major Goiabeira, como ela mesma o retratava quando contava esta história pra nós. Ela nasceu em 1921, mas sua avó, a viúva do Major Goiabeira, contou com detalhes para ela a história do Massacre do Alto Alegre — e que, posteriormente, também foi contada aos descendentes da família (Dagma Nunes, Luzia Nunes, Iara Nunes, Tarson Nunes, Vânio Nunes, lembram dessa história?). Eu me lembro de muita coisa, pois era só tocar no assunto que a Vó recontava toda a história desde o início. Era muito bom ouvir essas antigas histórias de pessoas que estavam dentro do contexto. Por outro lado, lembro também sobre algumas divergências sobre os acontecimentos, que a Vó chegou a relatar. Lendo este trecho — “Maior tribo do Maranhão, com mais de 11 mil índios, os guajajara são ainda hoje, em consequência do episódio, tratados com desconfiança e menosprezo pelas populações dos dois municípios [Barra do Corda e Grajaú]” –, percebo como é notável essa consequência naquelas bandas para as pessoas. As pessoas realmente desprezam muito os índios. Principalmente aqueles do tempo da minha Vó. // Grande Sanches, manda pra mim os materiais desse episódio, que eu tenho muito interesse em verificar os documentos e ver as várias versões pra ter certeza de qual é a que a história que minha Avó contava está relacionada. // Amigo Sanches, como sempre, não nos deixa esquecer os fatos importantes da nossa história local.” (LEANDRO NUNES SAMPAIO, Imperatriz – MA, 13/03/2013)

—– “E as perdas dos índios, ninguém sabe ler a tradução, pra ver o lado deles.” (ELVIS NASCIMENTO, 13/03/2013)

—– “Ainda muito criança, com o papai (“in memoriam”) e a mamãe visitei a igreja onde os padres foram mortos. Parabéns, Edmilson Sanches, por mais um precioso registro.” (CARLOS BRANDÃO, Imperatriz – MA, 14/03/2013)

—– “Belo relato.👏Não lembro de ter visto sobre o assunto nas escolas em que passei, apenas comentários vagos colocando os índios como assassinos. Ninguém questiona a forma como queriam “catequisar” eles, não respeitando suas crenças e costumes.” (EUNICE ERDMANN, 13/03/2018)

—– “Na companhia dos meus pais e do Bertoldo, dono de ônibus (pau de arara) que fazia a linha Imperatriz a São Domingos, visitamos a igreja citada nos seus escritos, meu caro e estimado Sanches.” (CARLOS BRANDÃO, 13/03/2018)

—– “Fiz um visita em Alto Alegre, hoje só ruínas. Tive uma boa conversa com o cacique de lá.” (JACKSON PEREIRA SILVEIRA, Imperatriz – MA, 13/03/2018)

—– “Quando tive a honra de receber o “Livro de Tombo”, com dedicatória de Frei Aristides, relendo textos grifados, comentei com o autor a questão cultural vista segundo o Catolicismo.” (MARIA LEDA DE SOUZA GOMES, Brasília – DF, 13/03/2018)

—– “Por favor… sou de Barra do Corda [MA}… Gostaria muito de conseguir esse “Livro de Tombo”, para biblioteca da Academia de Letras… Como consigo…????” (TÂMARA PINTO, Barra do Corda – MA, 14/03/2018)

—– “Tâmara, até volume com dedicatória pra meus pais (Alice / Boaventura) foi roubado da residência deles em Montes Altos. Vamos reeditar esta obra-prima?! Foram queimados/destruídos por nossos conterrâneos, que criticaram/criticam os relatos verídicos descritos pelo autor… PAZ E BEM. // Este volume faz parte de minhas memórias, em Brasília – DF”. (MARIA LEDA DE SOUZA GOMES, Brasília – DF, 14/03/2018)

—– “Tâmara Pinto: Fui editor de dois dos livros do meu amigo, de saudosa memória, Frei Aristides Arioli. Há uma terceira obra (“A Floresta Chama”), que iniciei os trabalhos, mas o Frei morreu. Já houve aqui nesta rede social [Facebook] um movimento (ou manifestações) para se reeditar essa obra. Mas ainda não saiu do reino da vontade… (EDMILSON SANCHES, Imperatriz – MA, 14/03/2018)

  • Edmilson Sanches
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